Hoje, numa das minhas viagens pelo IC19 [essa bela estrada, na qual mais do que um otário por dia não cumpre os limites de velocidade, provocando acidentes que dão mais do que tempo para reflexões], veio-me à memória uma grande figura triste que fiz uma vez. Posso dizer que essa memória me fez hoje sorrir muito.
Era Agosto e eu tinha vindo de Coimbra para Lisboa, no dia anterior, de comboio, para ir a uma entrevista de emprego. Apanhei um autocarro logo de manhã em direcção ao Tagus Park, vestida com umas calças que agora não me devem entrar nem nos braços [já na altura deixavam-me sulcos nas pernas e barriga de tão justas que eram, credo]. Quando terminou a entrevista mandaram-me para uma outra, agora no Lagoas Park.
Depois daquilo que me pareceu uma eternidade à espera de um autocarro, sob um sol impiedoso, cheguei e só queria despachar a entrevista e ir para casa. Mas ainda faltavam umas boas horas. Almocei no Go Natural, vagueei um pouco pelas imediações, telefonei ao E. [um telefonema um pouco apressado, se bem me recordo, tal era o pânico de ficar sem bateria], enquanto cambaleava de sono. E foi então que surgiu a pior ideia da história das más ideias: ir dormir para a casa-de-banho comum da zona da restauração.
Escolhi estrategicamente o WC que ficava mais longe da entrada [aquele que muitas vezes está fechado porque está em manutenção ou porque guardam lá os produtos de limpeza... nunca percebi bem mas é um clássico em qualquer casa-de-banho pública]. Fechei o tampo da sanita, sentei-me o mais confortavelmente que consegui [cabeça encostada ao azulejo, com as costas um pouco arqueadas por estarem apoiadas no autocolismo], programei o despertador e ali encontrei o alívio imediato onde muitos também o encontram... mas normalmente com o tampo aberto. Ia acordando de vez em quando com conversas, máquinas de secar as mãos, portas a bater, babas a escorrer pelo canto da boca. Ficava alerta por minutos e depois mergulhava novamente nesse sono desesperado.
Essa sesta caiu-me que nem ginjas. A entrevista correu bem e eu fui seleccionada para o cargo. Final feliz.
[Uma vez a minha mãe contou-me que o meu pai desapareceu a meio de um casamento e só o encontraram horas depois a dormir debaixo do palco: os genes são tramados].
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