terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

"Tens todo o tempo do mundo"

Claro que tenho. Saio de casa de manhã às 8:40, depois de arranjar marmitas que implicam descascar fruta e embrulhar sandes em saco próprio, apanho uma horinha de puro prazer (vulgo trânsito) na estrada mais perigosa de Portugal. Trabalho que nem um cão o dia todo sem pausas para lanches, cafés, cigarros, telefonemas,  muitas vezes WC e descanso dos olhos. Tenho que lidar com colegas que independentemente da idade e do sexo parecem estar sempre com a maldita TPM.

Depois de sair do trabalho, entre as 19:30 e as 20:00, por uma estrada estreita e escura que nem breu, frequentemente com galhos soltos por todo o lado e debaixo de chuva e nevoeiro, chego à selva urbana. Quando finalmente chego a casa [com os nervos em franja por mais uma horinha nessas maravilhosas estradas que são o IC19 e a Segunda Circular, onde parece ser sempre hora de ponta], entre as 20:30 e as 21:00, o que iria eu fazer com o meu "tempo de mulher", com "todo o tempo do mundo" senão as desejadas e merecidas lides domésticas? É para isso que cá estamos ou não?

No topo da minha lista não podia deixar de figurar as ida ao Pingo Doce em que demoro cerca de 15 minutos a correr para trazer tudo o que acho que preciso [esqueço-me sempre de algo importante] e depois demoro o mesmo tempo [senão mais] na fila para pagar. 

Remover o calcário dos vidros da banheira e do poliban foi um prazer recentemente descoberto mas que tão cedo não abandonará o podium. Mas o que é pura adrenalina é, sem dúvida, estender roupa após a meia-noite. Com o meu 1.64m, é um mimo dobrar lençóis e cobertores ensopados sozinha, para os pendurar numa estrutura minúscula de metal a que muitos chamam de estendal. Quase tão bom como fazer a cama de lavado sozinha. Almoço para amanhã? Quem precisa disso? Não é que eu não tenha tempo... é 01:20 e eu tenho "todo o tempo do mundo"... mas vou-me ficar por uma sopa na empresa.