Claro que tenho. Saio de casa de
manhã às 8:40,
depois de arranjar marmitas que implicam descascar fruta e embrulhar sandes em
saco próprio, apanho uma horinha de puro prazer (vulgo trânsito) na estrada
mais perigosa de Portugal. Trabalho que nem um cão o dia todo sem pausas para
lanches, cafés, cigarros, telefonemas, muitas vezes WC e descanso dos
olhos. Tenho que lidar com colegas que independentemente da idade e do sexo
parecem estar sempre com a maldita TPM.
Depois de sair do trabalho, entre
as 19:30 e
as 20:00,
por uma estrada estreita e escura que nem breu, frequentemente com galhos
soltos por todo o lado e debaixo de chuva e nevoeiro, chego à selva urbana.
Quando finalmente chego a casa [com os nervos em franja por mais uma horinha
nessas maravilhosas estradas que são o IC19 e a Segunda Circular, onde parece
ser sempre hora de ponta], entre as 20:30 e
as 21:00,
o que iria eu fazer com o meu "tempo de mulher", com "todo o
tempo do mundo" senão as desejadas e merecidas lides domésticas? É para
isso que cá estamos ou não?
No topo da minha lista não podia
deixar de figurar as ida ao Pingo Doce em que demoro cerca de 15 minutos a
correr para trazer tudo o que acho que preciso [esqueço-me sempre de algo
importante] e depois demoro o mesmo tempo [senão mais] na fila para
pagar.
Remover o calcário dos vidros da
banheira e do poliban foi um prazer recentemente descoberto mas que tão cedo
não abandonará o podium. Mas o que é pura adrenalina é, sem dúvida, estender
roupa após a meia-noite. Com o meu 1.64m, é um mimo dobrar lençóis e cobertores
ensopados sozinha, para os pendurar numa estrutura minúscula de metal a que
muitos chamam de estendal. Quase tão bom como fazer a cama de lavado sozinha.
Almoço para amanhã? Quem precisa disso? Não é que eu não tenha tempo...
é 01:20 e
eu tenho "todo o tempo do mundo"... mas vou-me ficar por
uma sopa na empresa.
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